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Mulher recebe célula-tronco e volta a andar
Jornal: O GLOBO - 19/11/2004

Vítima de derrame recupera a fala e o controle dos movimentos depois de fazer tratamento experimental

 

Uma terapia inédita testada pela primeira vez no Brasil indica que as células-tronco podem ser eficazes na recuperação de vítimas de acidente vascular cerebral - problema que afeta principalmente pessoas idosas e para o qual não há tratamento. Depois de se submeter à terapia, uma mulher paralisada por um derrame voltou a andar em 17 dias, uma recuperação considerada excepcionalmente rápida por especialistas.

A paciente testada com sucesso é a primeira de uma experiência que englobará outras 14 pessoas e está sendo conduzida por uma equipe da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Hospital Pró-Cardíaco - a mesma que já testou com sucesso o uso de células-tronco na recuperação de cardíacos. O teste, de fase 1, foi concebido para avaliar a segurança da terapia, mas os médicos consideraram o resultado bastante promissor no que diz respeito à eficácia.

Médico disse que paciente jamais voltaria a andar

Uma experiência com apenas uma pessoa é ainda muito incipiente e não significa que os resultados positivos se repetirão em outros pacientes. Ainda assim, dizem os cientistas, já pode ser considerada um marco dados o ineditismo e as perspectivas de tratamento.

- Eu diria que estamos iniciando uma nova era na busca do tratamento para essa doença - afirmou o coordenador do estudo, Hans Fernando Dohmann, diretor científico do Pró-Cardíaco. - Trata-se de apenas um caso no mundo inteiro e, é claro, precisamos ser cautelosos, mas estamos muito animados.

A dona-de-casa Maria das Graças Pomaceno, de 54 anos, sofreu um derrame em agosto e foi atendida no Hospital Lourenço Jorge. Ela teve todo o lado direito do corpo paralisado, não falava e tinha grande dificuldade de compreensão.

- O médico disse que ela ficaria com o lado direito do corpo paralisado - lembrou o vigilante Márcio da Costa Filho, de 34 anos, filho da paciente. - Foi horrível ouvir que ela não voltaria a andar e a falar.

No dia seguinte, entretanto, o médico contou sobre o estudo que estava sendo realizado no Pró-Cardíaco.

- Ele disse que ela seria a primeira pessoa a passar por esse tipo de implante e que, antes dela, a técnica só tinha sido usada em animais de laboratório - lembrou Costa. - Ele explicou que havia riscos, mas achamos que valia a pena. Seria horrível ela ter que passar o resto da vida numa cadeira de rodas, sem conseguir se comunicar.

Cinco dias depois de sofrer o derrame, ela recebeu o implante de células-tronco adultas retiradas de sua própria medula óssea. Em pouco mais de duas semanas, já caminhava, conseguia falar algumas palavras e apresentava bem menos dificuldade de compreensão.

- O resultado foi maravilhoso - comemorou Costa. - Ela está andando, entende bem o que a gente diz e, quando fica irritada, fala algumas coisas. Já varre a casa e toma banho sozinha.

As células foram injetadas por meio de um cateter introduzido pela artéria femoral da paciente, na virilha. Elas foram liberadas só na artéria cerebral média, onde normalmente ocorrem as obstruções que causam o derrame.

- Ao injetar essas células, nossa expectativa não era de que virassem neurônios - disse Rosália Mendez-Otero, chefe do Laboratório de Neurobiologia Celular e Molecular da UFRJ.

Quando um paciente sofre um derrame, os neurônios da parte mais afetada do cérebro morrem em 15 segundos. Uma grande área ao redor dessa lesão irrecuperável também é danificada, mas pode ser salva se for devidamente revascularizada. É justamente essa área que os especialistas visam em seu estudo. As células-tronco implantadas nessa região se mostraram capazes de formar novos vasos sangüíneos.

- Com a geração de novas pequenas artérias, aumenta a vascularização da região e a oferta de oxigênio, glicose e de outras substâncias que ajudam a recuperar os neurônios - observou a especialista.

Exames realizados antes e depois do procedimento, revelaram uma atividade crescente na área lesionada. Para os especialistas, um sinal de que a técnica pode revolucionar o tratamento dos derrames a médio prazo.

O risco dos falsos tratamentos

Cientistas alertam para as falsas promessas de tratamento com células-tronco que começam a aparecer no Brasil. Um dos pioneiros no estudo de células-tronco, Radovan Borojevic, da UFRJ, ressalta que não existem terapias aprovadas para aplicação em pacientes.

- Todos os procedimentos são experimentais e pouquíssimos centros estão capacitados a fazer esse tipo de estudo - alerta ele.

AS CÉLULAS EMBRIONÁRIAS

Especialistas envolvidos no inédito teste de uso de células-tronco adultas no tratamento do derrame fizeram ontem um apelo pela liberação das pesquisas com células-tronco embrionárias.

Tratam-se das células mais primitivas do organismo, as primeiras a se formar, e capazes de gerar todos os demais tecidos do corpo. Estudos feitos no exterior indicam que elas são muito mais potentes que as células-tronco adultas.

No entanto, os cientistas ainda não dominam totalmente a manipulação dessas células e estudos são necessários.

- Não conseguimos dominar totalmente as embrionárias. O que se viu em testes no exterior é que elas começam a formar todos os tecidos, pele, osso, cartilagem, e não só o que se quer - conta Rosália Mendez-Otero, chefe do Laboratório de Neurobiologia Celular e Molecular da UFRJ. - Mas é necessário estudá-las porque elas são mais potentes que as de medula.

O coordenador do estudo, Hans Fernando Dohmann, concorda:

- São necessários ainda muitos anos para usá-las em segurança, mas para chegarmos lá, precisamos estudá-las.

Jornal: O GLOBO / Autor: Roberta Jansen
Editoria: Ciência e Vida / Tamanho: 935 palavras
Edição: 1 / Página: 40
Coluna: / Seção:
Caderno: Primeiro Caderno

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